23 Abril, 2006

só se vê bem com o coração, o essencial é invisível para os olhos

Posted in leituras at 23:03 por catarinia

Eu adoro ler. E leio muito, até a bula dos medicamentos. Mesmo que não goste particularmente, faço questão de chegar ao fim, e há vezes em que até dou uma segunda oportunidade ao autor. O único livro que não consegui acabar foi "A Condição Humana", de André Malraux, e tentei duas vezes. Acho que a altura não foi a certa, e até talvez agora o viesse a achar interessante, mas criei um preconceito contra o livro, pronto!

Não quero com isto dizer que não seja selectiva. Apenas justificar a dificuldade evidente em eleger um livro, um só, para ser o preferido.

Neste dia Mundial do Livro deixo aqui um excerto daquele que talvez o seja – o tal, o preferidoO principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry. Porque é lindo, é puro, e está cheio de valores de amizade, de lealdade, de dedicação, de carinho, de ternura. Para mim, com toda a sua simplicidade, é muito mais que um livro para crianças: é um livro para a vida.

Andando, o principezinho encontrou um jardim cheio de rosas. Contemplou-as… Eram todas iguais à sua flor.
E deitado na relva, ele chorou…
…E foi então que apareceu a raposa:
– Bom dia, disse a raposa.
– Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
– Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira…
– Quem és tu? Perguntou o principezinho. Tu és bem bonita…
– Sou uma raposa, disse a raposa.
– Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste…
– Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
– Ah! Desculpa, disse o principezinho.
– Que quer dizer "cativar"?
– É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços…"
– Criar laços?
– Exactamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo… Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo…
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
– Por favor… Cativa-me! Disse ela.
– Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
– A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
– Que é preciso fazer? Perguntou o principezinho.
– É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto…
No dia seguinte o principezinho voltou.
– Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito… São precisos rituais.
– Que é um ritual? Perguntou o principezinho.
– É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. (…)
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
– Ai! – Exclamou a raposa – Ai que me vou pôr a chorar…
– A culpa é tua, disse o principezinho. Eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse…
– Pois quis.
– Mas agora vais-te pôr a chorar!
– Pois vou
– Então não ganhaste nada com isso!
– Ai isso é que ganhei! Disse a raposa. Por causa da cor do trigo… Anda, vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo. (…)
– Adeus…
– Adeus, disse a raposa. Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos…
O essencial é invisível para os olhos – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
– Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
– Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa… Repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
– Os homens já se esqueceram desta verdade, disse a raposa. Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa…

Excerto de "O Principezinho", de Antoine de Saint-Exupéry

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8 Comentários »

  1. GNM said,

    Tão lindo este excerto…
    Que as rosas nunca parem de crescer…

    Um beijinho grande

  2. catarinia said,

    Eu diria mais…
    Lindo, lindo, lindo! E maravilhoso.

    Beijinho :)

  3. AcesHigh said,

    "o essencial é invisivel para os olhos…"

    nem mais!

    um beijo*

  4. Liginha said,

    Esse livro é a coisa mais linda e pura q já vii!! Fiquei tão empougada que devorei de primeira, sem parar p qse nada!!! E a conversa do princepezinho com a rapoza é muito marcante p a vida! è um dos trechos do livro que quero levar comigo pro resto da vida! :)

  5. dani said,

    so se ve bem com o coração o essencial é invisivel para os olhos!

  6. eulalia jandira da piedade said,

    Li e gostei, so se ve bem com o coração o essencial e invisível para os olhos…………………. vou a livraria comprar para oferecer a minha filha

  7. Jessica said,

    Eu chorei, gente que coisa mais linda ”Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.” .
    AMEI DEMAIS. *–*

  8. lindo ,muito lindo . lindo mesmo. lindo demais adorei…


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