11.23.06
o rigor científico!

Tubarão frade, Cetorhinus maximus (Imagem de Chris Gotschalk)
Ao que parece, um barquinho de palangre de Sesimbra apanhou, na terça-feira passada, um tubarão frade. Para eu – que nos últimos tempos não tenho visto televisão nem lido jornais, a não ser durante o tempo que leva a beber um café, e que recuperei a net ainda nem há uma semana – ter apanhado a notícia em dois sítios diferentes, é porque das duas uma: ou foi uma grande coincidência, ou então isto foi tratado como um assunto de importância nacional!
Primeiro ouvi a notícia na televisão, mas já a apanhei a meio e nem lhe dei muita atenção. Mas depois, ontem li-a… no Correio da Manhã! (Lá está, durante o cafézinho. E parece haver um acordo de exclusividade entre estes senhores e os cafés de Faro, que não só não dispensam o pasquim, como não compram mais jornal nenhum a não ser os desportivos… Mas adiante.)
Pois então diziam as senhoras – as duas senhoras que assinavam a notícia, sendo que a nenhuma ocorreu ir procurar informação rigorosa – que em Sesimbra tinha sido capturado um tubarão vegetariano. Isto na primeira página porque, não contentes com a asneira, no artigo propriamente dito ainda reforçavam a ideia, dizendo que o tubarão é inofensivo porque se alimenta exclusivamente de vegetais.
Bonito. Já estou mesmo a ver a próxima manchete: «Tubarão frade: o terror das hortas sub-aquáticas!»












Cientista disse,
24 Novembro, 2006 às 08:51
É impressionante como o esforço para INFORMAR é tão pouco. Depois espantam-se de populações sem interesse em ciência e sem conhecimentos científicos que lhes permitam tomar decisões conscientes.
joaotiago disse,
24 Novembro, 2006 às 21:24
Repito o que digo milhões de vezes: «os órgãos de comunicação social são feitos à medida das exigências dos seus consumidores» e, enquanto consumidores, temos um enorme poder – não consumimos os que não correspondem às nossas expectativas.
É simples e pode fazer com que se eleve a qualidade da informação!
catarinia disse,
25 Novembro, 2006 às 03:13
Mas tens toda a razão, joão! Só que isso não desculpa a incompetência…
Nem toda a gente tem obrigação de saber o que é o plâncton ou um animal filtrador. Nem mesmo as senhoras que escreveram o artigo! A diferença é que, quem informa, tem a obrigação de informar bem. Logo, se não sabe, tem o dever de procurar saber, esteja a escrever para o CM, para a National Geographic ou para a revista Maria. Certo?
É óbvio que o CM é um jornal popularucho, e por ter determinado público alvo, é natural que adapte a forma de redigir as notícias às pessoas que o lêem. Plâncton é um termo demasiado científico? OK, então que lhe chamem pequenos animais e algas; ou mesmo microscópicos, que embora não seja muito rigoroso, sempre dá uma ideia de dimensão, não vá alguém imaginar o bicho a abocanhar uma pessoa. E filtrar água toda a gente compreende o que é…
Dava assim uma notícia tão rebuscada? Seria assim tão difícil de conseguir? Não, está a um clique de distância, a net é um mundo de informação… Só é preciso que quem informa tenha o mínimo de brio profissional para fazer bem o seu trabalho. Que é informar bem!
Eu acho que estas coisas só dão mau nome à classe dos jornalistas. Só por causa disto, já fiquei com vontade de arrasar contigo da face da Terra. Mas com muita doçura! Que tal aproveitar o temporal para uma noitada de Risco?
É para evitar coisas como esta que temos a Cientista desterrada!
Contamos contigo, Amiguinha!
invisiblegirl disse,
26 Novembro, 2006 às 09:19
É sempre triste encontrar estas situações porque só demonstra que neste país só se forma gente em letras, psicologia e tretas afins.
Há uns tempos atrás soube que a E.coli era um vírus, esta informação brotava da boca de um gajo que apresentava o jornal da tarde na rtp1. Santa paciência para quem lhes escreve as baboseiras.
catarinia disse,
26 Novembro, 2006 às 20:58
Eu não lhes chamaria exactamente tretas…
Acho que é por causa da ideia generalizada de que as letras são uma treta, a matemática um quebra cabeças, as ciências uma área para loucos alucinados e por aí fora, que acaba por haver este tipo de calinadas sem que ninguém ligue nenhuma.
No fundo, há é que respeitar as valência de cada área. E quando alguém é suposto botar discurso sobre alguma coisa fora da sua esfera de conhecimento, que se informe junto de alguém que saiba do que está a falar. É o mínimo que se pode exigir, tanto para não sair asneira, como para manter o respeito por todas as áreas do conhecimento.
joaotiago disse,
27 Novembro, 2006 às 17:47
Com certeza, Catarina, que, se um cientista fizer mal o seu trabalho, tu não achas que toda a classe foi afectada… Há bons jornalistas e órgãos de comunicação social. É só preciso optar por esses em detrimento de outros.
A menina em causa foi tão exigente em saber o que era plâncton, quanto os seus editores e os leitores do jornal para o qual escreve. Tenho a certeza absoluta que, se eu tratasse o assunto com a mesma displicência, tinha logo uma enciclopédia com pernas (chamada chefa!) a cair em cima de mim, antes que chovessem os telefonemas para a redacção.
Cientista disse,
28 Novembro, 2006 às 10:03
É muita pressão
ne disse,
4 Outubro, 2007 às 12:36
eheh