6 Dezembro, 2005

alice

Posted in cinematógrafo às 17:23 por catarinia

O Cine Clube de Faro fez ontem uma projecção do Alice, seguida de uma conversa com o realizador, Marco Martins.

Interessava-me na história de "Alice" explorar sobretudo a obsessão. Alguém que perde uma filha e que, sentido-se impotente para agir, cria um sistema paralelo de funcionamento, exterior à sociedade em que vive.

Quando, à noite de regresso a casa, vemos os vídeos de Mário e toda aquela multidão anónima, em movimento continuo, já não sabemos se aquelas imagens são reais se apenas existem na cabeça de Mário.

Um rosto igual a outro rosto, uma rua igual a outra rua, um dia igual a outro dia.

A cidade como local de abstracção onde, alguém como Mário, pode estar profundamente isolado. Na procura de Alice, Mário conhece outras personagens, também elas, de alguma forma, sozinhas também elas isoladas na cidade onde vivem.

"Alice" é sobretudo um filme sobre a ausência. Uma história de amor de um pai por uma filha.

(Marco Martins)

Depois do tanto que já se disse e escreveu sobre o filme, que poderei eu acrescentar? É tudo verdade: o filme é forte, é perturbador, é angustiante. A rotina, a repetição, a solidão no meio da multidão está patente do princípio ao fim, na vida rotineira e mecânica da cidade de todos os dias.

Na cidade onde, durante as filmagens, apenas 20 ou 30 pessoas receberam o apelo de um pai em desespero pelo desaparecimento da filha – e estas, e só estas, ficaram a saber que estavam a participar de um argumento. Para mim, foi isto o mais impressionante, exactamente por não fazer parte do guião: uma multidão a olhar para dentro, alheia a tudo à volta. Desumanizada.

Por tudo isto e por muito mais, o filme é mesmo muito bom. E é português.

3 comentários »

  1. Roma said,

    Em relação a essa parte das pessoas a "passar ao lado": mas isso ainda vos espanta? Então? Não é esse o mundo em que vivemos, que optómos por criar? Há novidade nisso? Culpa da pontinha de esperança de que todos padecemos que isto um dia será melhor e que não é tão mau assim, esquendo-nos que provavelmente muito contribuimos para que assim seja. Já não sei quem disse nem em que filme vi, mas esta frase ficou-me na cabeça:

    "Homens bons nada fazer já é mal suficiente…"

    Beijinhos

  2. catarinia said,

    Pois, é isso mesmo: nada fazer já é mal suficiente. Não me espanta, infelizmente. Nem tão pouco me surpreende que assim seja, infelizmente. Mas lá que me impressiona…

  3. E porque (não) é Natal…

    Não fui ver Alice do português Marco Martins. Fiquei a cuidar da moça enquanto que a mãe, essa sim, fugiu à rotina das fraldas e mamas e biberões e foi ao IPJ (é aproveitar antes que acabe; a partir de…


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