21 Agosto, 2006

das instituições

Posted in introspecções às 22:16 por catarinia

Sempre houve qualquer coisa nas instituições que me incomodou. E para ser franca, incomoda ainda. É precisamente o facto de serem instituições. De estabelecerem o padrão, de demarcarem o normal, de definirem o modelo, os princípios que regem, as leis fundamentais. E de amputarem liberdades.

São como que um código moral por decreto, uma lista de princípios e valores que são fundamentais. Ora, se são assim tão fundamentais, por que têm de estar escritos? Por que têm de se instituir? Se são realmente fundamentais, por que não são inatos? A moral, os princípios, os valores, não deveriam ser intrínsecos à condição humana?

Se deveriam, é óbvio que não o são. E tê-lo-ão sido alguma vez?

O casamento sempre foi das instituições que, desde cedo, me fez mais confusão. Se duas pessoas se amam a ponto de quererem viver juntas, constituir uma família, empreender um projecto comum, partilhar uma vida… qual é a necessidade de um contrato que o ateste? Qual é a relevância de um documento cheio de cláusulas e termos legais para a relação entre duas pessoas que se amam? É um contrato que fará com que se amem mais, ou com que a família seja mais feliz ou com que o projecto seja mais bem sucedido?

De facto, não é. Por isso, e também pelos destroços de pateta, ingénua e idealista que ainda vou encontrando em mim, tenho mantido intacto o meu descrédito na instituição do casamento. Porque embora não seja estúpida ao ponto de acreditar que o amor dura para sempre, tenho uma terrível dificuldade em aceitar que, se ele acaba, possa acabar também a integridade, a honestidade, o respeito pelo outro – o que, já de si, é revelador de um grau de estupidez bastante considerável.

E é precisamente quando duas pessoas deixam de se amar, que o casamento faz todo o sentido. Quando, depois de uma vida inteira em comum, alguém olha para o lado e não vê uma pessoa, mas um inimigo. Um incómodo perfeitamente dispensável, do qual se tem de livrar o mais rapidamente possível. E não há respeito, não há moral, não há princípios, não há valores. Só mesquinhez. E então abre-se a gaveta e lá está, esquecida por baixo de uma vida; imprestável por toda uma vida; toda engelhada, amarela e cheia de pó, mas pronta a salvar quem estiver em perigo: A Instituição.

As instituições, como as vejo, são um fruto da degradação humana. E no fundo, não são elas que me incomodam. É o facto de serem absolutamente necessárias.

5 comentários »

  1. Pó d'Água said,

    Uau!!!
    Já não vinha cá há umas semanitas…
    Adorei o novo visual.
    Beijocas

  2. catarinia said,

    Então bem vinda de volta!🙂

  3. O Pedro said,

    Elá!! Que é lá isso a dizer mal da instituição da qual me fiz recentemente sócio?
    Sabes que tive esta mesma discussão durante um casamento a que fui recentemente? Não, não foi com o noivo! Mas foi com o irmão dele. Que dizia, basicamente, o mesmo que tu.
    Como sabes, antes de mudar da equipa dos solteiros para a dos casados, estive vários anos a viver com a minha (agora) esposa. E nunca nada nos faltou! Então para quê casar!? Pois bem, apenas por romance, pelo dia para lembrar, pela possibilidade de dizer “a minha esposa” ao invés de “a minha namorada” ou “a minha companheira” (termo que sempre evitei usar pois me parece mais aplicável a cães).
    Depois disso, ao nível mais íntimo nada muda. Talvez o modo como o “mundo” te vê é que passe a ser diferente.

  4. Roma said,

    Ehlá! Grande Catarinia! Gostei! Tanto que até parece que não gostei dos outros! Mas estas tuas linhas foram de uma objectividade tal que me deixaram a pensar no casamento! Só por causa disso já me tás a dever um café!
    Mesmo assim ainda não dissequei as tuas palavras por completo mas fá-lo-ei! Era só mesmo para dizer que gostei!
    PS: E esta instituição não instituída que diz que quando lês um post de que gostas tens que o comentar? Dessa eu sou fã!

  5. catarinia said,

    Pedro, não se trata de dizer mal ou bem. É apenas uma reflexão sobre as minhas opiniões, as minhas convicções, sobre o que acho que devia ser e o que realmente é. E sobre o facto de as duas coisas raramente coincidirem…
    As pessoas casam-se pelas melhores razões e fazem muito bem, desde que acreditem nelas. Eu não ponho isso em causa. Aliás, todo o texto tem muito mais a ver com o descasamento do que com o casamento propriamente dito.
    Estamos entendidos?😉

    Roma, muito obrigada! Tanto elogio vindo de um prémio literário é de ter em conta.😛
    E tenho todo o gosto em pagar-te o cafezinho… No dia em que me deres as minhas fotografias!
    (ao que isto chegou, agora até tenho que recorrer à coacção…)


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