6 Dezembro, 2008

da primeira incursão na literatura escocesa

Posted in leituras, McCatherine às 01:06 por catarinia

Por serem companhia de peso – e a mala já estar suficientemente carregada para poder provocar uma hérnia discal ao carregador mais distraído – não vieram livros na bagagem. De maneira que me tornei na mais fiel vigilante da “Book Sharing Box” na cantina do Lab, onde encontrar um livro com ar apetitoso não é tarefa fácil: confesso que os critérios de selecção têm vindo progressivamente a decair, até chegar a um resignado “pode ser este, que é a única capa que não tem a gravura de um casal apaixonado com uma ilha ou um por do sol ao fundo”. Não tenho lido nada de jeito, portanto.

Até encontrar este aqui em baixo, que o Amiguinho resolveu esconder no gabinete “para levar quando tiver tempo”:

thesopranos

«The choir from Our Lady of Perpetual Succour School for Girls is being bussed from the Port to the national singing finals in the big, big city. And it’s an important day for the Sopranos: Orla, Kylah, (Ra)Chell, Manda and Fionnula (the Cooler) – pub-crawling, shoplifting and body-piercing being the top priorities. Then it’s time to lose that competition – lose, because a nuclear sub has just anchored in the bay and, tonight, the Mantrap disco will be full of submariners on shore-leave. There is no time for delays… but after the fifth bottle of alco-pop up the back of the bus it’s clear all is not going to go to plan, for anyone. The Sopranos are never going to be the same.»

The Sopranos, Alan Warner, 1998.

Demorei um bocadinho a entrar na história – não costumo ter dificuldades com o inglês, mas ler em “escocês” é um campeonato muito mais à frente! – mas depressa passei à fase em que não consigo parar de ler. Ainda vou a pouco mais de meio (o livro é grandote) e estou verdadeiramente entusiasmada. Não tanto pela história, que basicamente está na sinopse – depois de saber de que se trata, o enredo até agora não tem sido propriamente surpreendente – mas pela forma. Elas são adolescentes, transpiram hormonas e irreverência, e fazem todas as loucuras que se espera que façam no contexto em que estão inseridas. E ainda mais algumas. E tudo isso é retratado da forma mais genuína, mais crua e sem ponta de moralismo – de tal maneira que podiam ter sido elas a escrever o livro. É isso que o torna especial.

Diálogo num pub, bem regado a Sambucas, depois de convencerem o barman a emprestar-lhes o telefone “só para clientes especiais” (o estabelecimento tinha desistido do telefone público após vários incidentes destrutivos) para a Kylah ligar para a terra a dizer que queria sair da banda (com o barman a fazer o papel de novo manager), para poderem gastar o dinheiro que os moços tinham enviado à capital destinado a comprar CDs raros e especiais:

Kylah burst out with the greeting.
Kylah! Cmon.
Oh. Poor lassie.
Ah shouldnie ah done that.
Ach. Away. That’s way it goes, lassie.
Here, here, says one in the brown jacket waving about a hankie.
Nah nah, yur okay there, warned Chell and leaned her mouth into the hair, down the side, Kylah’s face, Yur fucking up your make-up baby, she whisper-whispered.
Kylah nodded, snuffled.
It’s me usually does the crying Kylah, Chell had an arm round now.
Ah know. Ah know, Kylah wiped her snozzle on back her hand then goes, Crazy ah’ve grat an here’s you, here’s you wi your real daddy away lost an yur big sister married to yon looney and here’s me all hetupness bout bugger all, she tried to do a big smile, teeth so white cause her face was red, but she guffed out a big sob again.
Chell drew back a fraction’n hushed, Here, yur gonna set me off, she smiled, a bit.
…An Orla nearly died an ahm sat here like a big, bubbly baby.
Don’t worry Kylah, we’ll give them the money back.
Kylah’s voice came clearer, a bit louder, Y’know fine we’ll splash out the lot. She guttered a big sob again.
You could see Chell’s eyes starting to go know.
Oh, ahm sorry ah mentioned your dad, it just came into ma mind.
Ach no, it’s just. Is it the boys you are crying about?
Kylah almost shouted it out, Aye!
You’re no at fancying one are you?
Don’t really make me cry! Ah mean ah had it off wi them but, och, just to get it over wi. The way you just know fancying are building up, an they were all over me, so’s ah thought, what boys are like, suck of ma tits an they’ll go back to fancying Courtney Love or that; yon Mazzy Start girl wi no voice.
Chell went, Aye well, least they were getting it from someone wi a good voice.
Aye, this is it, Kylah nodded, Ah mean ah never (she dropped to a whisper-whisper voice), never shagged them… it’s just. An here you could see she was as to about resuming wi bursting out at the greets.
Whaaat?
It’s just as a band.
What?
They’re so fucking shite. Ahm greeting cause ah feel sorry for them cause they’re so crap.
Oh.
What are we gonna do? Ah need to do ma make-up now.
The two girls looked at each other.
Chell says, Bestest find some place wi decentish toilets, eh?
Then what; get up this Pill place; wonder where Fionnula’s got to, eh? Kylah rubbed her eyes lightly on back of her hand to check for make-up then pinched and tugged down the sleeve of her T-shirt and wi head leaned to one side, rubbed one her cheeks on it.
We go straight there?
Both girls looked each other in the face an says… same time: French Connection!

The Sopranos, Alan Warner, 1998.

Estas amigas dão toda uma nova perspectiva à expressão “meninas do coro”, e são deliciosas! E agora quem percebeu tudo à primeira, pode candidatar-se a um rabeçado.

22 Fevereiro, 2008

fome. e sede. de letras.

Posted in leituras, musicalidades às 01:25 por catarinia

Boca do Inferno Kafka à Beira Mar

O Lado Selvagem A Sombra do Vento

Quatro livros. Viagens por quatro dos cantos do Mundo, sem sair do mesmo lugar. Da mesma cadeira desconfortável, do mesmo espaço gelado, da mesma exposição pouco menos que vazia – mas que me despertou a saudade de ler sem prazo e sem obrigação.

Enquanto o tempo se arrasta na espera, na incerteza, na insegurança de um futuro que teima em tardar a chegar. Quatro livros, muitas viagens. E uma música das que, estranhamente, aconchegam.

José González – Heartbeats

One night to be confused
One night to speed up truth
We had a promise made
Four hands and then away
Both under influence
We had divine scent
To know what to say
Mind is a razorblade

To call for hands of above, to lean on
Wouldn’t be good enough for me, no

One night of magic rush
The start: a simple touch
One night to push and scream
And then relief
Ten days of perfect tunes
The colours red and blue
We had a promise made
We were in love

To call for hands of above, to lean on
Wouldn’t be good enough for me, no

To call for hands of above, to lean on
Wouldn’t be good enough

And you
You knew the hand of a devil
And you
Kept us awake with wolves teeth
Sharing different heartbeats
In one night

To call for hands of above, to lean on
Wouldn’t be good enough for me, no

To call for hands of above, to lean on
Wouldn’t be good enough

25 Novembro, 2006

o homem que plantava árvores

Posted in cinematógrafo, leituras às 02:19 por catarinia

Frédéric Back - L'homme qui plantait des arbres

“Para que o carácter de um ser humano revele qualidades realmente excepcionais, é preciso ter a sorte de poder observar as suas acções ao longo de muitos anos. Se tais acções são desprovidas de todo o egoísmo, se o ideial que as dirige é de uma generosidade ímpar, se é absolutamente certo que não procuraram qualquer recompensa e se, além disso, deixaram marcas visíveis no mundo, estamos então, sem sombra de dúvida, perante um carácter inesquecível.”

Jean Giono

Hoje vi um filme lindo. Assim, sem estar à espera, numa formação de ecoturismo que estou a fazer.

É uma animação maravilhosa sobre a simplicidade, a persistência, a generosidade. E sobre como os actos de uma pessoa, ainda que isolados, podem fazer a diferença e mudar o mundo à sua volta.

Chama-se “O Homem Que Plantava Árvores” e é a história de um senhor muito peculiar, o pastor Elzéard Bouffier, contada por Jean Giono. A animação, lindíssima, é de Frédéric Back.

Não vou dizer mais, a não ser que vale muito a pena. É um conto pequenino, de seis páginas, que se pode ler na versão original, em francês; numa muito boa tradução para inglês; ou numa não tão boa tradução para português do Brasil. E sem culpas, já que o senhor resolveu doar os direitos de autor para que o conto fosse distribuido livremente.

Já o filme descobri-o no Google Video, aqui. Um pequenino bombom, já que merece ser visto com toda a qualidade possível.

18 Junho, 2006

grande lapso do Professor Marcelo

Posted in leituras, poetas e sonhadores às 22:30 por catarinia

Falhou o lançamento do livro da semana:

Já eu, estive lá. E trouxe o meu para casa, com uma dedicatória e um sorriso simpático. Está ali, à espera de um momento de serenidade, para o saborear de uma ponta à outra.

Mais uma vez, muitos parabéns, Gonçalo! O privilégio é todo meu!

23 Abril, 2006

só se vê bem com o coração, o essencial é invisível para os olhos

Posted in leituras às 23:03 por catarinia

Eu adoro ler. E leio muito, até a bula dos medicamentos. Mesmo que não goste particularmente, faço questão de chegar ao fim, e há vezes em que até dou uma segunda oportunidade ao autor. O único livro que não consegui acabar foi "A Condição Humana", de André Malraux, e tentei duas vezes. Acho que a altura não foi a certa, e até talvez agora o viesse a achar interessante, mas criei um preconceito contra o livro, pronto!

Não quero com isto dizer que não seja selectiva. Apenas justificar a dificuldade evidente em eleger um livro, um só, para ser o preferido.

Neste dia Mundial do Livro deixo aqui um excerto daquele que talvez o seja – o tal, o preferidoO principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry. Porque é lindo, é puro, e está cheio de valores de amizade, de lealdade, de dedicação, de carinho, de ternura. Para mim, com toda a sua simplicidade, é muito mais que um livro para crianças: é um livro para a vida.

Andando, o principezinho encontrou um jardim cheio de rosas. Contemplou-as… Eram todas iguais à sua flor.
E deitado na relva, ele chorou…
…E foi então que apareceu a raposa:
– Bom dia, disse a raposa.
– Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
– Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira…
– Quem és tu? Perguntou o principezinho. Tu és bem bonita…
– Sou uma raposa, disse a raposa.
– Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste…
– Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
– Ah! Desculpa, disse o principezinho.
– Que quer dizer "cativar"?
– É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços…"
– Criar laços?
– Exactamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo… Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo…
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
– Por favor… Cativa-me! Disse ela.
– Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
– A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
– Que é preciso fazer? Perguntou o principezinho.
– É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto…
No dia seguinte o principezinho voltou.
– Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito… São precisos rituais.
– Que é um ritual? Perguntou o principezinho.
– É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. (…)
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
– Ai! – Exclamou a raposa – Ai que me vou pôr a chorar…
– A culpa é tua, disse o principezinho. Eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse…
– Pois quis.
– Mas agora vais-te pôr a chorar!
– Pois vou
– Então não ganhaste nada com isso!
– Ai isso é que ganhei! Disse a raposa. Por causa da cor do trigo… Anda, vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo. (…)
– Adeus…
– Adeus, disse a raposa. Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos…
O essencial é invisível para os olhos – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
– Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
– Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa… Repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
– Os homens já se esqueceram desta verdade, disse a raposa. Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa…

Excerto de "O Principezinho", de Antoine de Saint-Exupéry

2 Março, 2006

a arte da fuga

Posted in leituras às 17:42 por catarinia

Recebi-o de presente de um amigo que nunca esquece, e nunca se esquece.

Diz-se no site do autor que «Este livro descreve a relação estabelecida entre o terapeuta (Daniel Sampaio) e um mágico apaixonado. Fala-se de intimidade, de amor e de violência. Critica-se a prática de uma psiquiatria tradicional, que não está atenta à dimensão humana da relação terapêutica.»

Confesso que a princípio não me despertou grande interesse. Psicologia clínica, um caso real… Estava à espera de um drama de fazer chorar as pedras da calçada. Não pensei que fosse gostar muito. Daí o ter sucessivamente deixado para depois, quando estivesse no espírito.

Puro erro. Quando finalmente lhe peguei, não consegui parar até chegar ao fim. Foi, literalmente, uma noite em claro. Não é o tipo de livro que me costuma prender, mas ou está muito bem escrito, ou o caso é realmente peculiar e interessante, ou foi sem dúvida uma noite muito no espírito. Ou tudo ao mesmo tempo, ainda não consegui decidir-me.

Talvez por isso, ontem à noite voltei a pegar-lhe. Não li tudo de novo, só algumas páginas que tinha assinalado. E mais uma vez, a mesma passagem que se destaca:

«A intimidade é essencial para a vida. É o que conseguimos quando somos capazes de estabelecer uma relação próxima com alguém, permitindo ultrapassar o isolamento que nos inquietava. Uma experiência de intimidade põe-nos em profundo contacto com o outro, partilhando vivências em várias áreas ao mesmo tempo, quase sempre com a esperança de que essa mútua construção do real não acabe depressa e nos devolva a solidão de que fugimos.»

Daniel Sampaio, "A Arte da Fuga" (1999)

18 Janeiro, 2006

na terra dos sonhos – o livro

Posted in leituras, musicalidades às 00:39 por catarinia

Ora bem, ora bem! Párem-se as máquinas! Finalmente, cá está ele!!!

Um ano! Levei quase um ano a dar pistas e dicas, na esperança que alguma alma caridosa se resolvesse a largar-mo no colo… E foi preciso sugeri-lo como presente da minha Mãe para um amigo meu, para finalmente me vir parar às mãos!

(A propósito: obrigada, Pedro! Parece que era o único exemplar num raio considerável, e não fosses tu ter essa lata toda, ainda não era desta… "– Epá, não gosto de ler poesia… E as letras já as sei todas de cor!" Pois olha, tá dito, tá dito! E agora é meu, todo meu, meu até ao fim! Mas juro que não foi estratégia, pensei mesmo que ías gostar…)

Pois muito bem, "na terra dos sonhos [poemas]" é a compilação, feita por João Carlos Callixto, de todas as letras escritas por Jorge Palma, para as suas canções e para as de outros. Estava desertinha para lhe pôr as mãos (e os olhos!), mas com estes últimos dias mais ou menos agitados, só ontem é que lhe peguei.

E não me apetecia parar! É que se dá o caso de gostar muito, mas mesmo muito, deste senhor. E "na terra dos sonhos" terá, a partir de agora, residência oficial na minha mesa de cabeceira.

Na Terra dos Sonhos

Andava eu sem ter onde cair vivo
Fui procurar abrigo nas frases estudadas do senhor doutor
Ai de mim, não era nada daquilo que eu queria
Ninguém se compreendia e eu vi que a coisa ía de mal a pior

Na terra dos sonhos podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos, escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar

Andava eu sozinho a tremer de frio
Fui procurar calor e ternura nos braços duma mulher
Mas esqueci-me de lhe dar também um pouco de atenção
E a minha solidão não me largou da mão nem um minuto sequer

Na terra dos sonhos podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos, escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar

Se queres ver o mundo inteiro à tua altura
Tens de olhar para fora sem esqueceres que dentro é que é o teu lugar
E se às duas por três vires que perdeste o balanço
Não penses em descanso, está ao teu alcance, tens de o reencontrar

Na terra dos sonhos podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos, escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar

(Jorge Palma, Geneva, 1978)

15 Abril, 2004

acabou-se-me a musicalidade

Posted in leituras às 02:04 por catarinia

Ultimamente tenho andado bastante empenhada em reduzir a pilha interminável de livros "para ler quando tiver tempo". E acabei agorinha mesmo «O Meu País Inventado», da Isabel Allende. Gostei muito, é muito diferente de todos os outros que li dela – e foram alguns – mas ao mesmo tempo muito parecido. Descreve o Chile como um país de nostalgia, não exactamente como é ou como foi, mas como ela gosta de o relembrar. E a certa altura tem uma expressão que achei genial. Nada imaginário, nada nostálgico. Cruamente real.

«Criou-se uma sociedade inclemente na qual o lucro é sagrado; se tu és pobre, a culpa é tua; e se te queixas, certamente que és comunista. A liberdade consiste em haver muitas marcas para escolher o que se pode comprar a crédito.»

Acabou-se-me a musicalidade. Hoje quero mudar de Mundo.