4 Maio, 2008

poema à Mãe

Posted in poetas e sonhadores às 23:54 por catarinia

No mais fundo de ti,
eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha – queres ouvir-me? –
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal…

Mas – tu sabes – a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade
«Os Amantes Sem Dinheiro», 1950

Anúncios

23 Fevereiro, 2007

hoje, há 20 anos atrás…

Posted in musicalidades, poetas e sonhadores às 00:12 por catarinia

Zeca Afonso
Imagem daqui

Águas passadas do rio
Meu sono vazio
Não vão acordar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Águas do rio correndo
Poentes morrendo
P’ras bandas do mar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

José Afonso, Balada do Outono

Hoje, há 20 anos atrás, morria Zeca Afonso. E hoje, há 20 anos atrás, eu com 9 anos tinha o meu primeiro encontro com a morte. Não de alguém próximo, não de alguém conhecido, mas de alguém que desde sempre teve lugar de destaque na banda sonora lá de casa.

E lembro-me de me ter emocionado na altura, sem perceber muito bem porquê. Coisa que ainda agora me acontece, de cada vez que oiço o Zeca. Como com certeza voltará a acontecer quando revir pela enésima vez o último concerto, no Coliseu, em 1983. É hoje, à 1h30, na RTP1.

Coisas que me fazem pensar que talvez tenha nascido fora do meu tempo.

28 Novembro, 2006

para ti, Mãe

Posted in poetas e sonhadores às 02:19 por catarinia

Não posso adiar o amor para outro século
Não posso
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
E montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
Amor e ódio

Não posso adiar
Ainda que a noite pese séculos sobre as costas
E a aurora indecisa demore
Não posso adiar para outro século a minha vida
Nem o meu amor
Nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa
«Viagem Através duma Nebulosa», 1960

Porque o passado foi lá atrás. E há dias felizes à tua espera.

20 Agosto, 2006

quero dos deuses

Posted in poetas e sonhadores às 00:47 por catarinia

Quero dos deuses só que me não lembrem.
Serei livre – sem dita nem desdita,
Como o vento que é a vida
Do ar que não é nada.
O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos,
Cada um com seu modo, nos oprimem.

A quem deuses concedem
Nada tem liberdade.

Ricardo Reis

10 Julho, 2006

não sei de amor senão

Posted in poetas e sonhadores às 23:56 por catarinia

Aqui há uns tempos, a RTP fez uma produção chamada Voz, em que em cada pequeno programa era declamado um poema com uma determinada envolvência de som e imagem.

Num desses programas foi lido um poema de Manuel Alegre de que gostei muito e que procurei por todo o lado sem o encontrar.
Até agora. Encontrei-o finalmente!

Não sei de amor senão

Não sei de amor senão o amor perdido
o amor que só se tem de nunca o ter
procuro em cada corpo o nunca tido
e é esse que não pára de doer.
Não sei de amor senão o amor ferido
de tanto te encontrar e te perder.

Não sei de amor senão o não ter tido
teu corpo que não cesso de perder
nem de outro modo sei se tem sentido
este amor que só vive de não ter
o teu corpo que é meu porque perdido
não sei de amor senão esse doer.

Não sei de amor senão esse perder
teu corpo tão sem ti e nunca tido
para sempre só meu de nunca o ter
teu corpo que me dói no corpo ferido
onde não deixou nunca de doer
não sei de amor senão o amor perdido.

Não sei de amor senão o sem sentido
deste amor que não morre por morrer
o teu corpo tão nu nunca despido
o teu corpo tão vivo de o perder
neste amor que só é de não ter sido
não sei de amor senão esse não ter.

Não sei de amor senão o não haver
amor que dure mais do que o nunca tido.
Há um corpo que não pára de doer
só esse é que não morre de tão perdido
só esse é sempre meu de nunca o ser
não sei de amor senão o amor ferido.

Não sei de amor senão o tempo ido
em que amor era amor de puro arder
tudo passa mas não o não ter tido
o teu corpo de ser e de não ser
só esse meu por nunca ter ardido
não sei de amor senão esse perder.

Cintilante na noite um corpo ferido
só nele de o não ter tido eu hei-de arder
não sei de amor senão amor perdido.

Manuel Alegre

2 Julho, 2006

o mundo de Sophia

Posted in poetas e sonhadores às 20:00 por catarinia

Sophia de Mello Breyner Andresen

“Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar”

Sophia de Mello Breyner Andresen

18 Junho, 2006

grande lapso do Professor Marcelo

Posted in leituras, poetas e sonhadores às 22:30 por catarinia

Falhou o lançamento do livro da semana:

Já eu, estive lá. E trouxe o meu para casa, com uma dedicatória e um sorriso simpático. Está ali, à espera de um momento de serenidade, para o saborear de uma ponta à outra.

Mais uma vez, muitos parabéns, Gonçalo! O privilégio é todo meu!

12 Junho, 2006

hoje, há um ano atrás…

Posted in poetas e sonhadores às 23:39 por catarinia

… morria Eugénio de Andrade.

E se o corpo de um poeta são as suas palavras, quem melhor que elas para o recordar?

To A Green God

Trazia consigo a graça
das fontes, quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens, quando desce.

Andava como quem passa,
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
de uma flauta que tocava.

Eugénio de Andrade em «As Mãos e os Frutos», 1948

17 Janeiro, 2006

nostalgia antecipada

Posted in amiguinhos, poetas e sonhadores às 20:10 por catarinia

Hoje perdemos o homem da casa. Acabou finalmente o curso e lá foi, de armas e bagagens, à vidinha dele.

Não é que vá propriamente para o outro lado do mundo (pelo menos para já!) mas, apesar de juntos parecermos os velhos dos Marretas, já sinto assim uma nostalgiazinha antecipada… É uma bela dupla que se separa.

E agora? Com quem é que vou implicar?

De maneira que volta sempre que quiseres e puderes. Mesmo que não haja espaço podes sempre dormir no tapete, que a Dharma aquece-te os pés!

Entretanto, toda a felicidade do mundo para ti, Amiguinho! Já tenho saudades!

Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo!

Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,

Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.

Amigo é a solidão derrotada!

Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

(Alexandre O'Neill in No Reino da Dinamarca, 1959)

9 Dezembro, 2005

2 sonetos

Posted in poetas e sonhadores às 19:42 por catarinia

Porque não consegui escolher só um…

Sonhando

É noite pura e linda. Abro a minha janela
E olho suspirando o infinito céu,
Fico a sonhar de leve em muita coisa bela
Fico a pensar em ti e neste amor que é teu!

D'olhos fechados sonho. A noite é uma elegia
Cantando brandamente um sonho todo d'alma
E enquanto a lua branca o linho bom desfia
Eu sinto almas passar na noite linda e calma.

Lá vem a tua agora… Numa carreira louca
Tão perto que passou, tão perto à minha boca
Nessa carreira doida, estranha e caprichosa,

Que a minh'alma cativa estremece, esvoaça
Para seguir a tua, como a folha de rosa
Segue a brisa que a beija… e a tua alma passa!…

(Florbela Espanca in O Livro D'Ele, 1916)

Vulcões

Tudo é frio e gelado.
O gume dum punhal Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha

No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal
Tudo é quente lá dentro… e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!

No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões…

Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão, palpita e ruge em mim doida e fremente!

(Florbela Espanca in As Quadras D'Ele IV, 1916)

Florbela Espanca

Posted in poetas e sonhadores às 19:18 por catarinia

Ontem, dia 8 de Dezembro, assinalou-se o aniversário do nascimento (1884) e da morte (1930) da senhora que dorme na minha mesa de cabeceira há já vários anos: Florbela Espanca.

Foi uma mulher à frente do seu tempo, com uma história de vida atribulada e sofrida. Mas de uma sensibilidade e de uma paixão imensa, que transpira em tudo o que escreve. E quem melhor que ela para se definir a si própria?

Sou uma céptica que crê em tudo, uma desiludida cheia de ilusões, uma revoltada que aceita, sorridente, todo o mal da vida, uma indiferente a transbordar de ternura. Grave e metódica até à mania, atenta a todas as subtilezas de um raciocínio claro e lúcido, não deixo, no entanto, de ser um D. Quixote fêmea a combater moinhos de vento, quimérica e fantástica, sempre enganada e sempre a pedir novas mentiras à vida, num dar de mim própria que não acaba, que não desfalece, que não cansa! Toda, enfim, nesta frase a propósito de Delteil: "Trés simple avec son enthousiasme à sa droite et son désespoir à sa gauche."

(Carta a Guido Battelli, 27 de Julho de 1930)

20 Novembro, 2005

espera

Posted in poetas e sonhadores às 01:25 por catarinia

Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa

É então que se vê o passar do silêncio

Navegação antiquíssima e solene

Sophia de Mello Breyner Andresen

5 Outubro, 2005

manual de sobrevivência (editado e corrigido!)

Posted in poetas e sonhadores às 20:36 por catarinia

OK… Até hoje tem estado aqui um texto erradamente atribuído a Shakespeare. Lembro-me de na altura não me ter parecido muito Shakespeareano e de me ter fartado de procurar para confirmar a autoria, mas sempre que o encontrava lá estava creditado ao senhor. Por isso, aqui também o foi…

Mas depois deste comentário e de um e-mail da jacky com um outro texto, de Paulo Sant’Ana, onde era referido que também esse tinha sido erradamente divulgado como sendo de Shakespeare, fui verificar outra vez. E como se pode ver no Autor Desconhecido, o texto não só corre por aí com autoria errada, como foi completamente adulterado de um poema de Veronica Shoffstall.

É aqui que eu coro até à raiz dos cabelos e me cubro de vergonha… De maneira que, para me redimir, aqui fica o poema mesmo a sério. Versão original e tudo.

After a While

After a while you learn
the subtle difference between
holding a hand and chaining a soul
and you learn
that love doesn’t mean leaning
and company doesn’t always mean security.
And you begin to learn
that kisses aren’t contracts
and presents aren’t promises
and you begin to accept your defeats
with your head up and your eyes ahead
with the grace of woman, not the grief of a child
and you learn
to build all your roads on today
because tomorrow’s ground is
too uncertain for plans
and futures have a way of falling down
in mid-flight.
After a while you learn
that even sunshine burns
if you get too much
so you plant your own garden
and decorate your own soul
instead of waiting for someone
to bring you flowers.
And you learn that you really can endure
you really are strong
you really do have worth
and you learn
and you learn
with every goodbye, you learn…

Veronica A. Shoffstal, 1971

21 Setembro, 2005

quase

Posted in poetas e sonhadores às 03:29 por catarinia

“Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase.

É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga,
quem quase passou ainda estuda,
quem quase morreu está vivo,
quem quase amou não amou.

Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no Outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.

Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.

O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência. Porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Para os erros há perdão;
para os fracassos, chance;
para os amores impossíveis, tempo.

De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.

Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando. Porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.”

Sarah Westphal Batista da Silva

Hoje, nas minhas deambulações pela Net, tropecei nesta senhora e neste texto. E tocou-me fundo.

Adenda: Este texto foi erradamente atribuído a Luis Fernando Veríssimo. Graças à Joana ali em baixo nos comentários, fica reposta a verdade dos factos. E pode ler-se toda a história da confusão aqui.

7 Outubro, 2004

Mar

Posted in poetas e sonhadores às 00:12 por catarinia

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Página seguinte